quarta-feira, 4 de junho de 2008

Liberdade

“Foge Tiago! Eles vêm atrás de nós.” Foi esta a frase que ouvi, do meu amigo Vasco. Olhei para trás e, realmente, ele tinha razão, desta vez estavam fardados. Começámos a correr. Que adrenalina! “É difícil correr na areia, o próximo assalto não voltará a ser no bar da praia” pensava eu enquanto fugia. Fomos por um atalho até à aldeia mais próxima, conseguindo despistá-los. De repente ouvi uma voz a gritar por ajuda. O som vinha de uma casa estranha. Espreitei pela janela e não podia acreditar no que via. Um homem de cabelos grisalhos, espancava violentamente uma criança com cerca de dez anos de idade. Talvez fosse seu pai. Foi aí que me lembrei da minha infância, tinha-me acontecido exactamente o mesmo. O meu pai era alcoólico… senti que tinha que ajudar aquela criança. Arrombei a porta e apontei-lhe uma arma, a mesma arma que tinha usado no assalto, nunca pensara fazer uma boa acção com ela. O Tiago voltou a avisar-me que tinha ouvido a policia. Não quis saber, eu tinha que ter a certeza de que a criança ficava bem e em liberdade. A polícia entrou e prendeu o homem, a criança foi levada para uma instituição, ao que parece a sua mãe tinha falecido e esta estava completamente só. Nas noites seguintes a este acontecimento, não parava de pensar no assalto que tinha feito. Lembro-me de umas crianças que, ao verem-me, choraram, o que eu tinha feito só por divertimento!... Sentia-me um monstro aterrorizador, isto nunca me tinha acontecido. Mas também me lembro na criança que tinha salvo e fez-me sentir um herói. Era assim que queria continuar. Por isso entreguei-me à polícia, contei tudo. Queria a minha liberdade de volta, queria poder dormir sem pesos na consciência. No julgamento, condenaram-me a sete anos de cadeia. Foi merecido. Apesar de tudo, sabia que tinha sete longos anos pela frente e só depois seria um homem livre.
Os sete anos passaram e, hoje, com sessenta e dois anos sinto-me realmente em plena liberdade. Naquela altura era muito novo, tinha sensivelmente dezanove anos. Tento transmitir aos meus netos aquilo que é certo e o que é errado. Sinto-me feliz por aquele dia do assalto ter acontecido, foi como que uma prova de vida, vi que aquilo que fazia era completamente errado. Nunca bati nos meus filhos, porque não há nenhuma criança que mereça isso, nem nenhum pai tem liberdade para o fazer.
Micaela Lopes nº 15 10º L

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